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Entrevista de Susana Almeida Lopes à OesteCIM

21 de Fevereiro de 2024

Dia Mundial da Justiça Social

Celebrou-se ontem o Dia Mundial da Justiça Social e a OesteCIM não podia deixar de assinalar esta data. Para isso reunimos testemunhos importantes de quem está na linha da frente das batalhas pela diversidade, igualdade e inclusão. É o caso de Susana Almeida Lopes: psicóloga e doutorada em psicologia das organizações, professora e investigadora no ISEG, tem vários artigos publicados sobre gestão de talento. Atualmente é a CEO da SHL Portugal. Comprometida com a diversidade e inclusão, coordena projetos de Igualdade no iGen e GRACE e lançou o livro Igualdade de Género nas Organizações. Está nos rankings do Financial Times como uma das 10 pessoas mais inovadoras da Europa.

 

- O que significa justiça social e qual a sua importância na construção de uma sociedade equitativa?

- A justiça social, ao considerar que todos os seres humanos devem ter os mesmos direitos e deveres, independentemente das suas diferenças individuais ou coletivas, fundamenta a construção de uma sociedade equitativa. A justiça social deve ser abordada também numa lógica de bem-estar e de procura pela felicidade: de acordo com a psicologia positiva, a justiça social visa a promoção de condições equitativas que permitam o florescimento e bem-estar de todos os membros da sociedade. Isso inclui o acesso igualitário/equitativo a recursos, a oportunidades e a tratamento justo.

- Quais são os principais desafios à injustiça social e desigualdades, e como acredita que esses desafios podem ser superados?

- Um dos principais desafios à injustiça social e às desigualdades é a falta de consciência e de sensibilização sobre as causas e as consequências da exclusão social e da discriminação. É também muito frequente as pessoas que gozam de privilégios sociais não reconhecerem as suas vantagens e não se responsabilizam pelo seu papel na perpetuação das desigualdades. Dou um exemplo: estou muitas vezes com grupos de formandos genuinamente interessados em contribuir para a igualdade na sociedade, mas que até ao momento de realizarmos um exercício de autoconhecimento, não tinham ainda identificado serem parte de grupos privilegiados, a vários níveis, desde oportunidades de educação, a etnia, background académico, meio económico-social, entre outros. Quando pergunto a alunos em formação pós-graduada: o nosso grupo é diverso? A resposta é quase sempre sim, mas a reflexão sobre se somos uma amostra representativa da nossa sociedade em Portugal, leva-nos a concluir que não. Para superar os desafios, é importante implementar programas de consciencialização e introdução de práticas que potenciem a igualdade com as comunidades: é necessário o compromisso de autarquias, empresas públicas e privadas e associações. Um exemplo é o envolvimento dos líderes empresariais locais para a implementação de práticas de gestão de pessoas promotoras de justiça social, como o recrutamento que garanta a igualdade de oportunidades e a diversidade.

- Como a educação pode desempenhar um papel fundamental na promoção da justiça social, e quais mudanças são necessárias no sistema educacional para alcançar esse objetivo?

- A educação deve contribuir para a formação de cidadãos conscientes, críticos e solidários, que sejam capazes de intervir de forma positiva na realidade em que vivem. É através dela que são desenvolvidas competências, valores e atitudes que permitem reconhecer e combater a desigualdade e discriminação que existem na nossa sociedade. No entanto, para que a educação possa cumprir esse papel, são necessárias mudanças no sistema educacional, desde logo o acesso equitativo a educação de qualidade, que elimine barreiras que impedem muitos estudantes de prosseguirem os seus estudos.

É preciso formar os professores e os psicólogos nas escolas para uma educação participativa e para o desenviesamento das escolhas vocacionais. É importante, por exemplo, incentivar as raparigas a enveredarem por cursos de ciências, que têm maior empregabilidade e melhores perspetivas de futuro. São áreas de escassez de talento no país e no mundo.

O projeto Oeste + Igual é simultaneamente pioneiro e transformador. Atua em diferentes frentes, de forma concertada, para transformar mentalidades e implementar práticas de igualdade.

- De que forma podem os jovens ser envolvidos no diálogo sobre justiça social e incentivar a sua participação ativa na construção de um futuro mais equitativo?

- O espaço mais natural dos jovens é a escola, pelo que desenvolver espaços de debate e reflexão nas escolas ou em colaboração com as escolas, universidades, é porventura a opção mais eficaz. Estes espaços não têm de ser físico, podem ser espaços virtuais, indo ao encontro das vivências atuais. O importante é que estimulem o pensamento crítico, a escuta ativa e a empatia pelos outros. Outra forma de incentivar a participação ativa dos jovens na construção de um futuro mais equitativo é oferecer-lhes oportunidades de voluntariado, ativismo e liderança em organizações da sociedade civil, movimentos sociais e partidos políticos, que trabalhem pela promoção e defesa dos valores da justiça social.

- Como o projeto OesteCIM contribui para consciencializar e educar as comunidades sobre a importância da igualdade de género, promovendo uma mudança cultural duradoura em relação a papéis tradicionais de género?

- O projeto Oeste + Igual é simultaneamente pioneiro e transformador. Atua em diferentes frentes, de forma concertada, para transformar mentalidades e implementar práticas de igualdade. Atua na consciencialização da comunidade com campanhas, questionários e seminários abertos; atua na sensibilização e na formação de professores, psicólogos e alunos; atua na formação em práticas de gestão de pessoas promotoras de igualdade. Pretende, de forma inovadora, implementar um pacto com as empresas da região para a igualdade de género. Todos os objetivos e métricas são enquadrados num observatório da igualdade, com métricas, que permite avaliar a implementação e progresso. Apenas com planos incisivos e abrangentes como o da OesteCIM e monitorização contínua é possível uma mudança duradoura em relação a papéis de género. Não é algo que aconteça nem naturalmente nem rapidamente. É preciso esforço contínuo, persistência e investimento nas novas gerações.